Um longo dia
Qual
é a duração de um dia? A resposta é óbvia: 24 horas, 1440 minutos, 86 400
segundos. Mas essa não é uma verdade quando se refere aos nossos sentimentos,
principalmente para Jurandir, trabalhador honesto em uma loja de calçados, em
uma terça feira, que deveria ser um dia normal!
Como
todos os dias de trabalho ele depende do despertador para acordar, mas mesmo
assim, faz questão de vê-lo após seu barulho estridente tocar, como se quisesse
garantir que não tem mais nenhum segundo para ficar mais um pouquinho em sua
cama, tão quentinha, sob as cobertas. Porém, são 7 horas da manhã, horário
sagrado para se levantar, se alimentar e se arrumar. Levanta-se e se dirige ao
banheiro, sentindo-se um robô. Escova seus dentes, mas só desperta ao lavar seu
rosto. Prefere fazê-lo com água fria, pois lhe falaram que a água quente
envelhece a pele. Ao enxugar seu rosto ouve sua campainha. Quem seria a essa
hora, pensa, e dirige-se à porta. Mesmo morando em um apartamento, com porteiro
e telefone interno, não deixa de olhar através do "olho mágico" e não
vê nada. Resolve abrir a porta. Seria alguma entrega? O susto é imediato ao ver
um homem, de bruços, deitado na soleira de sua porta! O que teria acontecido?
Olhou para os lados e não vê ninguém. Abaixa-se, toca o corpo estendido no chão
e sente que o mesmo está frio, rígido ... morto!!!! E agora, o que poderia
fazer? Atrasaria-se para chegar ao trabalho, mas como deixar o corpo em frente
à sua porta e simplesmente sair? E se arrastasse o corpo para outra porta? Não,
não tinha outra alternativa além de telefonar para a polícia, para o seu patrão
e aguardar. Ficou assustado, mas resolveu seguir essa sequência. Quem seria o
homem? Resolveu aguardar a polícia chegar e não remover o corpo. Três horas
após sua ligação a polícia chegou, começou a interrogá-lo e quando Jurandir vê
o rosto do corpo, o reconhece: é o seu vizinho Godofredo, do andar de cima.
Eles discutiram na noite anterior devido ao barulho excessivo que Godofredo tem
feito em seu apartamento, incomodando-o diariamente, dificultando até ouvir o
jornal televisivo. Foi uma discussão feia e muitos dos vizinhos presenciaram
essa discussão. Percebeu assim que seu dia seria mais longo do que o normal,
teria de encontrar um advogado para ser aconselhado antes que falasse alguma
coisa que o incriminasse mais. Liga para seu patrão para pedir o número do
telefone do advogado da firma, entra em contato com ele e depois de 4 horas ele
aparece. Nesse meio tempo, o corpo foi levado para a necrópsia e teria de se
apresentar na delegacia até as 15 horas. Não consegue mais ter noção do tempo,
ora sente que ele "voa", ora que ele "não passa". Porém,
quando finalmente o advogado chega fica sabendo que o mesmo já tem a informação
de que o falecido Godofredo tinha realmente "falecido" por motivos
naturais. Jurandir respira aliviado, porém seu dia não havia terminado, pois
não conseguia relaxar ou mesmo dormir. Vinham-lhe perguntas que talvez nunca
teria as respostas: "O que o vizinho estava fazendo em seu andar?,"
"Quem teria tocado a campainha?", "Em pensar em como Godofredo
sempre o incomodava com seu barulho no andar de cima, sentiria a falta
desse?". Finalmente o sono acabou levando-o embora do seu mais longo dia.
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