sexta-feira, 27 de abril de 2012

Minha primeira crônica, espero que gostem e que não seja apenas a primeira ...

Um longo dia

Qual é a duração de um dia? A resposta é óbvia: 24 horas, 1440 minutos, 86 400 segundos. Mas essa não é uma verdade quando se refere aos nossos sentimentos, principalmente para Jurandir, trabalhador honesto em uma loja de calçados, em uma terça feira, que deveria ser um dia normal!

Como todos os dias de trabalho ele depende do despertador para acordar, mas mesmo assim, faz questão de vê-lo após seu barulho estridente tocar, como se quisesse garantir que não tem mais nenhum segundo para ficar mais um pouquinho em sua cama, tão quentinha, sob as cobertas. Porém, são 7 horas da manhã, horário sagrado para se levantar, se alimentar e se arrumar. Levanta-se e se dirige ao banheiro, sentindo-se um robô. Escova seus dentes, mas só desperta ao lavar seu rosto. Prefere fazê-lo com água fria, pois lhe falaram que a água quente envelhece a pele. Ao enxugar seu rosto ouve sua campainha. Quem seria a essa hora, pensa, e dirige-se à porta. Mesmo morando em um apartamento, com porteiro e telefone interno, não deixa de olhar através do "olho mágico" e não vê nada. Resolve abrir a porta. Seria alguma entrega? O susto é imediato ao ver um homem, de bruços, deitado na soleira de sua porta! O que teria acontecido? Olhou para os lados e não vê ninguém. Abaixa-se, toca o corpo estendido no chão e sente que o mesmo está frio, rígido ... morto!!!! E agora, o que poderia fazer? Atrasaria-se para chegar ao trabalho, mas como deixar o corpo em frente à sua porta e simplesmente sair? E se arrastasse o corpo para outra porta? Não, não tinha outra alternativa além de telefonar para a polícia, para o seu patrão e aguardar. Ficou assustado, mas resolveu seguir essa sequência. Quem seria o homem? Resolveu aguardar a polícia chegar e não remover o corpo. Três horas após sua ligação a polícia chegou, começou a interrogá-lo e quando Jurandir vê o rosto do corpo, o reconhece: é o seu vizinho Godofredo, do andar de cima. Eles discutiram na noite anterior devido ao barulho excessivo que Godofredo tem feito em seu apartamento, incomodando-o diariamente, dificultando até ouvir o jornal televisivo. Foi uma discussão feia e muitos dos vizinhos presenciaram essa discussão. Percebeu assim que seu dia seria mais longo do que o normal, teria de encontrar um advogado para ser aconselhado antes que falasse alguma coisa que o incriminasse mais. Liga para seu patrão para pedir o número do telefone do advogado da firma, entra em contato com ele e depois de 4 horas ele aparece. Nesse meio tempo, o corpo foi levado para a necrópsia e teria de se apresentar na delegacia até as 15 horas. Não consegue mais ter noção do tempo, ora sente que ele "voa", ora que ele "não passa". Porém, quando finalmente o advogado chega fica sabendo que o mesmo já tem a informação de que o falecido Godofredo tinha realmente "falecido" por motivos naturais. Jurandir respira aliviado, porém seu dia não havia terminado, pois não conseguia relaxar ou mesmo dormir. Vinham-lhe perguntas que talvez nunca teria as respostas: "O que o vizinho estava fazendo em seu andar?," "Quem teria tocado a campainha?", "Em pensar em como Godofredo sempre o incomodava com seu barulho no andar de cima, sentiria a falta desse?". Finalmente o sono acabou levando-o embora do seu mais longo dia.

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